Por que o preço da nota não é o seu custo
Pergunte a qualquer dono de distribuidora quanto custa o galão dele e a resposta quase sempre é o preço que aparece na nota do fornecedor. É o número mais fácil de lembrar, e é o errado.
O que está na nota é o preço da carga, a água que você comprou na troca pelos vazios. Entre essa nota e a venda acontecem outras coisas que mexem no custo de cada unidade: o frete daquela carga precisa ser dividido entre os galões, a bonificação derruba o preço médio, as unidades que chegam quebradas empurram o próprio custo para as que sobraram e o vasilhame, que é seu, se gasta um pouco a cada volta e às vezes não volta nunca mais.
Quem trabalha com o preço da nota costuma achar que tem uma margem que não tem. A diferença raramente é grande em uma venda, mas em mil galões por mês ela decide se o mês fechou no azul.
O que entra no custo de um galão
1. O preço da carga
A base da conta. Use o valor por unidade que está na nota do fornecedor, sem arredondar para cima nem para baixo.
2. O frete da compra
O que você pagou para a carga chegar até você. Divida pelo total de unidades recebidas, incluindo as bonificadas. Um frete de R$ 900 em 500 galões são R$ 1,80 por unidade, quase metade do que você pagou pela própria carga.
3. A bonificação recebida
Se você pagou 100 e recebeu 110, o mesmo dinheiro se divide por mais galões e o custo médio cai. É o único item da lista que joga a seu favor, e é justamente o que mais gente esquece de considerar.
4. A avaria no caminho
Um galão que quebra na volta da fonte custa muito mais do que a carga. Você perde a água que pagou, o frete que ela já consumiu e o vasilhame, que era seu e vai ter que ser reposto. Um galão de R$ 32 que quebra com R$ 4 de água dentro é um prejuízo de R$ 36, não de R$ 4, e ele se transfere todo para as unidades que chegaram boas.
5. O desgaste e a perda dos vasilhames
Aqui mora o erro mais caro, porque o parque de galões é da distribuidora. O galão vazio não é despesa da venda nem investimento eterno: é um ativo que roda e se desgasta. Divida o preço dele pelo número de ciclos que ele aguenta na vida útil e some a parte dos que não voltam. Um vasilhame de R$ 32 que roda 2 vezes por mês durante 3 anos custa cerca de R$ 0,44 por ciclo, e cada 1% de sumiço acrescenta mais R$ 0,32.
Como calcular, passo a passo
Um exemplo com números redondos:
- Você comprou 500 cargas a R$ 4,00, o que dá R$ 2.000,00 de mercadoria.
- Pagou R$ 900,00 de frete, então a compra saiu por R$ 2.900,00 no total.
- Recebeu nenhuma bonificação e 1 galão quebrou no caminho, sobrando 499 unidades para vender. Junto com ele foi embora um vasilhame de R$ 32,00.
- Divida R$ 2.932,00 (a compra mais o vasilhame quebrado) por 499 e chega em R$ 5,88, e não nos R$ 4,00 da nota.
- Some o desgaste do vasilhame: um galão de R$ 32,00 que roda 2 vezes por mês durante 3 anos são 72 ciclos, ou R$ 0,44 por venda, mais R$ 0,32 do 1% que o cliente não devolve.
- Custo unitário real: R$ 6,64.
- Vendendo a R$ 15,00, o lucro bruto é de R$ 8,36 por galão, e não os R$ 11,00 que a conta de cabeça sugeria.
São R$ 2,64 de diferença por galão. Em 1.500 galões no mês, são R$ 3.960 que você achava que tinha e não tem.
O que não entra no custo unitário
Custo unitário é o custo de ter o produto no estoque. Por isso fica de fora tudo que só acontece na hora de vender:
- gasolina e manutenção da moto ou do carro da entrega
- comissão do entregador
- taxa da maquininha de cartão
- aluguel, energia, água e salários fixos
Isso não significa que esses custos não importam, muito pelo contrário. Eles é que separam o lucro bruto do lucro real. Só que eles variam por entrega e por forma de pagamento, então precisam ser calculados por venda, e não empurrados para dentro do preço do galão.
Três erros que aparecem toda hora
Tratar o vasilhame como despesa do mês
Comprar 200 galões vazios não é uma despesa de um mês, é a compra de um ativo que vai rodar por anos. Lançar tudo de uma vez faz o mês parecer péssimo e todos os seguintes parecerem ótimos.
Congelar o custo e nunca mais revisar
O fornecedor reajusta, a bonificação muda, o frete sobe. Um custo cadastrado há oito meses faz todo relatório de lucro mentir, e você só descobre quando o caixa não fecha.
Definir preço de venda por multiplicação fixa
Multiplicar o preço da nota por dois é rápido, mas ignora frete, avaria e vasilhame. O resultado costuma ser uma margem menor do que a que você imaginava, e ela encolhe justamente quando o frete aumenta.
Perguntas frequentes
Já sabe o custo. E agora?
Cadastre esse valor no custo do produto e mantenha atualizado a cada compra. É a partir dele que todo relatório de lucro da sua distribuidora passa a fazer sentido.
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